
Nessa semana eu decidi bancar o repórter e entrevistei o grande amigo e músico Erik Hendges (vocalista da banda brasileira Mayo), que assim como eu veio passar uns tempos na terra da rainha e nesse mês vai fazer uma turnê com a banda por aqui (a qual vou ter a honra de ser o roadie). O cara, nos seus 25 anos, é graduado em produção musical além de já ter feito diversos outros cursos na área e veio pra Londres só pra se aprimorar musicalmente. Além disso, ele também tem uma visão da cidade bem diferente da minha, o que é ótimo pra gerar uma reflexão.
Bom, como a coluna é sobre música e Londres num blog que ama a cena independente, ninguém melhor pra falar do que ele, né não? Segue abaixo a entrevista (pulando o “bom dia”).
Rafael: Primeiramente, em poucas palavras, por que Londres?
Erik: Resumidamente, porque na minha opinião é um dos melhores polos musicais no mundo para conviver e se aprimorar.
R: Como foi a sua decisão de vir pra cá?
E: Então, difícil dizer... O principal motivo é que eu tava procurando um curso de composição que englobasse não só a parte de teoria musical mas também a parte de escrita de letras. Me passou dois lugares na cabeça: EUA e Reino Unido, mas por eu já ter morado no Estados Unidos no passado, acabei optando por Londres. Acabou sendo a melhor decisão, quando percebi que Londres é o maior reduto de músicos que eu já tive contato.
R: E como tem sido a experiência até agora?
E: Em uma palavra, interessante. Com prós e contras. O pró principal é que tive muito contato com diferentes culturas. Londres tem me oferecido isso muito mais que qualquer outro lugar já ofereceu. O fato de eu estar trabalhando e estudando com pessoas do mundo inteiro tem sido muito enriquecedor, agregou muito. A experiência de morar em Londres é bem diferente. É uma cidade muito voltada pro transporte público, a locomoção aqui é muito desenvolvida, a qualidade dos serviços é muito alta. Como contras, eu achei uma cidade muito acizentada, chove muito, dá uma cansada hahaha. Um contraste com o Brasil, que cada vez mais tenho certeza que é minha casa.
R: Você já morou em vários lugares, certo? Se der, descreve um pouco como foram as experiências nesses lugares.
E: Los Angeles, eu fui pra estudar música em 2008. Lá eu encontrei um clima um pouco mais parecido com o Brasil, a cabeça do californiano é um pouco mais parecida com a do brasileiro, me assimilei muito com o povo de lá. Foi muito bom, mas era uma fase diferente, uma fase de descobertas, em que eu estava ainda me encontrando. Hoje, em Londres eu vim muito mais focado.
Quando voltei para o Brasil, saí do interior e vim morar em São Paulo. Fui fazer faculdade de musica na Anhembi Morumbi, produção musical. E foi onde minha carreira “semi-profissional” começou a tomar rumo. Depois de dois anos voltei pro interior, minha querida Indaiatuba. Pra mim, até hoje é a melhor cidade do mundo pra se viver hahaha. É uma cidade incrível, perto de tudo, clima de interior. Por mais que não pareça, a cena musical da cidade também é muito boa. Pro tamanho dela, Indaiatuba tem muito a oferecer do ponto de vista da música independente.
Sem querer puxar o saco mas já puxando, a secretaria de cultura de Indaiatuba dá muito, muito espaço não só pro Rock mas pros artistas independentes como um todo. Rolam vários eventos e festivais ao longo do ano. De agora em diante, pra Mayo, o plano é que QG seja Indaiatuba mesmo. E se deus quiser com bastante turnê pelo mundo hahaha.
Disclaimer: Erik não mantém relações com nenhum funcionário da prefeitura de Indaiatuba. É só puxação de saco mesmo.
R: Como você vê a cena musical Londrina? E em comparação com a brasileira?
E: Aí você me ferra, né, hahaha. Realmente não tem como comparar. Nós infelizmente estamos milhões de anos atrasados comparando com a cena musical daqui. Não só daqui como a dos EUA também. Infelizmente o Brasil ainda não tem suporte para bandas independentes. Aqui uma banda consegue viver independente, fazendo seu som, juntando uma grana, sem ter nem que tocar em rádio, sem ter que fazer parte de uma grande produtora. Aqui é muito mais fácil. Sem falar da quantidade de lugares pra você tocar. A cada esquina você tem um pub.
Aí entra também no lado da cultural... Aqui foi onde o Rock nasceu, a tradição deles é calcada nisso, diferente do Brasil, onde essa cultura foi "importada". É difícil comparar. Um gênero como o que a gente toca realmente sofre até pela questão cultural do país. No brasil dupla sertaneja toca em qualquer esquina também. É uma questão de demanda.
R: Tem como falar um pouco sobre as aulas e pessoal do instituto (British Institute of Contemporary Music)?
E: Então, posso falar do curso que eu faço, que é de Songwriting (eles tem vários cursos). O instituto presa muito pela qualidade das aulas. Eles realmente querem estar no “nível mais alto”, por ser britânico mesmo, gostam muito da "excelência". O curso tem o lado mais teórico, mais tradicional e quadrado de livros, mas ao mesmo tempo tem uma dinâmica muito original e orgânica. Eles tentam puxar isso do aluno. Eles tentam sobressair o lado criativo dos músicos, além de dar a base teórica.
É legal ver o instituto dar também uma base pro lado criativo, porque apesar de muita gente julgar criatividade como um dom, na pratica e questão de desenvolvimento e controle. Entender que a inspiração não é um negócio aleatório, e que pode ser desenvolvido. O meu curso, especificamente, também e bem completo, com aula de music business, produção de demos, composição em grupo, análise de letras, performance e etc. Enfim, eles abordam por todos os lados, é um curso bem completo. Sinceramente, se o curso não fosse tão bom eu provavelmente não estaria mais por aqui hahaha.
R: A Mayo inteira tá vindo pra Londres pra uma turnê agora no mês de maio, é isso mesmo? Conta um pouco mais pra gente sobre essa turnê. Quais as expectativas?
E: Pois é, rapaz! Estamos divulgando nessa semana nossa turnê com quatro shows na Inglaterra. Primeiramente, acho que é uma vitória gigante pra gente estar conseguindo fazer nossos shows internacionalmente. É uma coisa que, como nos cantamos em inglês, sempre mentalizamos e tivemos como meta. Comigo morando aqui, era uma oportunidade que a gente não poderia perder. Seria um desperdício. Graças a deus deu tudo certo pra banda inteira vir pra cá e as casas aceitaram bem nosso som. Não tivemos problemas com barreiras por ser estrangeiros, nem nada. Estamos muito felizes e ansiosos, com a certeza de que vai agregar muito pro nosso "portfólio" e queremos tirar o melhor proveito disso. Posso adiantar que vai rolar um mini-documentário sobre essa turnê mais pra frente.
Quanto às expectativas, esperamos sair daqui com muitos amigos e mais contatos pra no futuro podermos voltar novamente.
R: E as expectativas e planos para a volta ao Brasil?
E: No primeiro momento, dar continuidade a divulgação do Panacea, lançar uma coletânea do meu trabalho solo como compositor (não é minha prioridade mas gostaria de fazer), e dar continuidade ao meu trabalho como produtor. Por enquanto é isso, um passo de cada vez.
R: Agora, pra encerrar, você acha que sua experiência em Londres está sendo positiva?
E: Com certeza a experiência tá sendo muito positiva. Minha evolução como músico e como pessoa não seria possível se eu não tivesse saído da minha zona de conforto. Realmente estou muito feliz com tudo que esses 8 meses tem me proporcionado. Inclusive essa entrevista hahaha.
(Fim)
Apesar de eu discordar dele (e de todo mundo) sobre o clima de Londres, jurar de pés juntos que eu vejo o sol por aqui boa parte dos dias (com chuvas intercalando, claro) e não estar nem um pouco cansado desse lugar, devo dizer que os outros pensamentos do Erik se assemelham muito aos meus, e talvez por isso esse tempo que passamos por aqui tenha nos tornado grandes amigos (o cara tá até me ajudando a produzir meu projeto solo também, olha só que maravilha).
Se você estiver no Reino Unido, confere na página deles as datas dos shows e compareça que boto minha mão no fogo que vai valer a pena. Se não estiver, entra lá também e ouve logo que os caras tem talento e o som é fino. Na próxima coluna, vou fazer uma cobertura da minha aventura como roadie da Mayo nessa incrível turnê internacional. Fiquem ligados! *Plimplim*

RAFAEL MELO
Tem uma banda que gostaria de fazer sucesso, gosta daqueles rocks ingleses e de MPB e se sente deslocado toda vez que pedem pra tocar Jota Quest ou Natiruts em lual na praia. Lê menos e fala mais do que deveria.
