Na verdade, aqui tem me lembrado muito a São Paulo. Londres funciona melhor, São Paulo é menos fria. Londres é muito mais bonita, São Paulo é (por incrível que pareça) menos cara. Tem nego que insiste em descrever que morar por essas bandas ou em qualquer outro lugar da Europa é uma coisa surreal, mas, essencialmente, pra alguém que já está condicionado a viver em uma cidade como São Paulo, Londres é estranhamente familiar.
Dito isso, vamos falar de música. Aliás, se tem uma hora que não dá pra comparar Londres com São Paulo, é quando se fala de cultura.
Na primeira vez que peguei um ônibus aqui, cruzei umas cinco ou seis galerias de arte no meu trajeto. Todas particulares, todas funcionando e todas, provavelmente, dando lucro. Vi museus e galerias sempre cheias, dezenas de banners pela cidade divulgando peças de teatro e lançamento de disco e pessoas sentadas em pubs pra ver bandas desconhecidas tocarem (sim, os donos dos pubs e casas de show as deixam tocar sem ter que vender ingresso pra isso e geralmente até ganham um cachêzinho).
Essas coisas você não vê no Brasil. Passei dias me perguntando que porra gera esse contraste. Talvez aqui os artistas sejam melhores? Talvez aqui o governo incentive mais a cultura?
Pouco tempo depois já dá pra perceber que a maior diferença está no consumidor. Não quero tratar cultura como um mero produto, mas nesse caso vou ser pragmático: O inglês, na média, parece consumir e pagar muito mais por cultura que o brasileiro. Não que o brasileiro não consuma cultura, inclusive, nós temos uma das mais ricas do mundo. Mas ao que parece, a forma que a gente lida com isso tem sido muito pouco rentável pro artista.
Arte pra gente é muitas vezes visto como algo paralelo, algo que não vale a pena se esforçar pra ter. E isso fica muito claro quanto se entra de cabeça em outra cultura. O pessoal aqui não baixa coisa pirata, compra CD do iTunes e realmente busca material novo, gente nova. O brasileiro genérico não se interessa o suficiente por nada que já não venha mastigado da televisão.
Não vou perder meu tempo discutindo se veio primeiro o ovo ou a galinha, se o brasileiro não consome porque não tem ou se não tem porque o brasileiro não consome. Por algum motivo bizarro é o que acontece, e provavelmente não tem um só culpado nessa história. Um conjunto de fatores nos colocaram aqui e todos merecemos um puxão de orelha (sim, eu também baixo música pirata, eu também tenho preguiça de sair de casa pra ouvir um som que não conheço e hesito em pagar pra ir a uma exposição de arte).
Acho que o que fica é uma reflexão. O que tenho visto por aqui realmente tem me inspirado a abrir minha cabeça, buscar mais e dar uma chance pro que é novo. E pode ser que as coisas mudem.
Por fim, é importante dizer que aqui em Londres tem lixo no chão e mendigo na rua sim, tem gente ignorante e trânsito entupido também, como qualquer cidade grande. Como falei no começo, Londres não é outro mundo e aqui também é foda ser artista. Agora, se tem um lugar no mundo pra tentar a sorte, provavelmente é por aqui.

RAFAEL MELO
Tem uma banda que gostaria de fazer sucesso, gosta daqueles rocks ingleses e de MPB e se sente deslocado toda vez que pedem pra tocar Jota Quest ou Natiruts em lual na praia. Lê menos e fala mais do que deveria.


