Tivemos a honra de receber como primeiros entrevistados do Kzero a banda do litoral de Sp, Analisando Sara. A banda que lançou recentemente o Ep 6567826968738469 já está preparando um novo projeto e o Kzero resolveu bater um papo com a banda.
A maioria das letras de vocês não trasmitem uma mensagem reta como
geralmente é feito. Elas fazem o ouvinte pensar muitas vezes pra tentar
decifrar o sentido das composições. Como vocês veem isso?
No início da
banda lá em 2006, um dos parâmetros que decidimos era que as letras seriam de
multi interpretação pessoal, idéias que fizessem sentido de acordo com a
interpretação de cada ouvinte, sem a necessidade de que fossem mastigadas
anteriormente pra que fossem assimiladas com maior facilidade.
A música num
geral sempre funcionou como um certo tipo de psicólogo pra nós, cada mensagem
que me atinge de alguma banda que gosto me mostra que existem mais pessoas que
se identificam com a minha vivencia ou dilema, me mostrando diferentes saídas e
estados de espírito relacionados ao sentimento que eu carregava quando aquela
música me tocou. Uma das grandes forças que nos movem é sentir essa
identificação pessoal relacionada ao sentimento que a gente expõe, poder ser a
mudança na vida de alguém usando como ferramenta a música que move a nossa
vida.
Desde que foi formada a banda sofreu por diversas modificações ao que
diz respeito aos integrantes da banda, chegando a somente ter o vocalista
Gilberto como único remanescente da formação original. Como é lidar com essas
mudanças e como foi a recepção dos novos integrantes?
A banda
começou em 2006 com a junção de 2 projetos, um que estava saindo do papel e um
que havia terminado, tínhamos todos os integrantes necessários pra começar uma
banda, só que dessa vez, com propósitos maiores além do ‘compor e tocar’,
queríamos fazer com que essa banda fosse levada como projeto de vida. Um dos
grandes problemas de se fazer um som tido como ‘experimental’ era definir os
parâmetros do que cabia ou não dentro de cada musica, e essa incompatibilidade
natural somada aos compromissos que a vida nos impõe com o passar dos anos fez
com que naturalmente a prioridade de alguns integrantes se alterasse. Teve
gente que saiu da banda por conta de faculdade, por que iria morar em outro
estado, por incompatibilidade musical em certo ponto, por ter que renovar visto
no japão (é sério haha), por simplesmente ‘abandonar o rock’ e por ai foi.
Essas saídas de integrante só fizeram com que a substituição fosse sempre sendo
feita por algum amigo meu muito próximo. Na época, eu andava com um núcleo de
amigos que tocavam em uma banda chamada ‘Last Memory’, que tinha a Daniela no
baixo e o Skero na bateria, além do Henrique como roadie. Com o fim dessa banda, cada vaga que ‘abria’
na Analisando foi preenchida com algum deles. (Destaque na Daniela que foi a
pessoa que mais tive que insistir pra integrar o projeto). A base do que a
banda é hoje em dia tomou forma em 2008.
O
underground, como qualquer integrante de banda, produtor ou qualquer profissão
relacionada a ele sabe, é uma luta por dia. É muito difícil conseguir se manter
existindo, ainda mais com troca de formação, vimos muita banda de amigos com um
potencial sem igual acabar por que simplesmente um guitarrista saiu. No nosso
caso, o que nos mantém existindo sempre é a amizade que transcende qualquer
situação. Antes do Skero, a Daniela e o Henrique integraram a Analisando, nós
já andávamos juntos a anos. Então,
talvez se a formação tivesse se mantido a primeira, não teríamos o entrosamento
que temos hoje em dia pra tornar cada conquista possível.
Esse ano vocês foram a única banda da região a tocar na Virada Cultural
Paulista. Como foi o evento e a reação do público ao ver o som da banda?
No primeiro
instante que soubemos da possibilidade de tocarmos na virada cultural, o frio
na barriga se instalou e só deu lugar à tranqüilidade após termos descido
daquele palco. O evento em si se trata da maior intervenção cultural que pode
ser efetuada em meio a selva de pedra que tem se tornado as grandes cidades,
podermos expor a nossa forma de arte na capital de nosso estado com a estrutura
que nos foi dada foi como viver um sonho acordados. Não há como negar que o
medo nos tomava, pensando justamente nesse lado de reação do público a um som
que não é costumeiramente ouvido nas rádios ou em qualquer mídia de veiculação
aberta.
Chegamos no
Backstage do palco por volta das 11 da manhã, com nosso show marcado pras 13
horas, e a verdade é que quando chegamos haviam pouco mais de 20 pessoas
perambulando pela rua na qual tocaríamos. Ao passar de cada minuto, foram
chegando cada vez mais rostos conhecidos por nós, e dentro de duas horas o que
eram 20 pessoas perambulando se tornaram 300 pessoas que a gente conhecia pelo
nome, 300 pessoas que estiveram parceladamente
em cada evento que tocamos no estado no decorrer de 2011, 300 pessoas
vivendo ali com a gente mais do que um simples show, mas uma conquista de um
underground que existe e não vai poder ser ignorado por muito tempo. Nunca nos
sentimos tão conectados com o publico como nesse dia, a galera cantou, dançou e
ESGOTOU todos os EP’s que havíamos levado para a venda. A maior vitória que
poderia ter acontecido, aconteceu e da forma que menos esperávamos. Acreditávamos
que amigos e fãs iriam marcar presença, mas que num geral o publico seria
formado por pessoas que estavam curtindo a virada cultural num geral, mas o que
aconteceu foi a presença em massa de pessoas de todos os cantos do estado pra
celebrar aquele momento com a gente, que se deslocaram de suas casas naquele
domingo de manhã para nos assistir, por
entenderem o tamanho daquela conquista e por partilharem essa felicidade
conosco.
O Ep 6567826968738469
carrega uma mensagem de uma delicadeza enorme ( que pra preservarmos o disco
não falaremos qual é ). Mas conte pra quem já comprou e possui o disco. De onde
vem isso? Vocês sentam trocam uma ideia e todos chegam a um senso comum rápido
ou rola bastante indecisão?
O fato da banda ser composta por amigos facilita muito
o processo criativo, pois mesmo quando não estamos ensaiando, produzindo ou
viajando para shows, estamos em contato direto conversando sobre os mais
diversos assuntos, dessa forma que as idéias surgem. Dividimos nossas duvidas, anseios e vivencia
entre nós todo o tempo e o que se resulta de aprendizado disso, nós tentamos
expor em formato de música.
Keka Rarecandy feat. Sasha Robot foi
o primeiro clip de vocês e carregou uma simplicidade muito grande, que acaba
contrastando com o som da banda. Isso é algo que a banda procurou visar no clip
e que também tenta visar nos sons? E por curiosidade, de onde veio o nome desse
som?
Antes de termos qualquer idéia do que precisaríamos
para termos um clipe, decidimos produzir um e as coisas foram acontecendo como
num filme, primeiro surgiu o pessoal da Attitude Riders, produtora responsável
pelo clipe, com a intenção de produzirem o seu primeiro material relacionado a
música e em seguida somou se ao projeto o californiano Obie Obien, diretor e
guitarrista da banda de reggae Christafari. O Resultado do clipe foi uma soma
de diversos fatores, gravamos o clipe com uma prévia do som, que na época
estávamos gravando, e estávamos com toda parte conceitual do EP muito fresca em
mente e loucos pra aplicá-la em todos os materiais que derivariam dele, o clipe
era o primeiro passo. Acho que a grande dificuldade de quem se mantém no
underground é a grana, e no nosso caso não é diferente, portanto tínhamos que
condensar em um único ambiente tudo o que pudesse remeter a idéia que a música
passa, e da nossa maneira foi o que fizemos. Boa parte do que constrói o
cenário do clipe são itens que foram pegos emprestados com amigos, abajours,
tapete da sala de casa, arrancamos molduras de quadros velhos, compramos outras
tantas mais em brechós e tivemos muita ajuda de nossos familiares e amigos que
carregaram equipamento pra cima e pra baixo durante 2 dias.
Quanto ao nome, é uma alusão ao tema que a musica
retrata. Essa musica fala especificamente sobre depressão. A depressão cria em
nós uma angustia que parece uma bruxaria que não passa, é um vai e vem de
sentimentos e anseios que fogem completamente do controle de quem se deixa
levar. Quem já jogou Pokemon de game boy conhece um item no jogo chamado de
Doce Raro, ou “RareCandy”, esse item faz com que o seu pokemon passe de level
sem que seja preciso treino ou esforço. A ‘Keka RareCandy’ é a representação de
como o vazio pode nos preencher cada dia a mais sem que a gente se esforce pra
isso. O nome Keka foi escolhido como uma brincadeira relacionada a ícones do
sistema, é o nome da personagem bruxa interpretada pela Xuxa. A Xuxa sempre foi
a rainha dos baixinhos e por anos ocupava esse posto sem ter de fato um filho.
Ao nosso ver, o sistema molda as informações que querem que você acredite pra
que se tornem verossímeis, palpáveis, e a Sasha é um exemplo muito prático.
Quem nos garante que a Sasha de fato existe? A TV? Os poucos segundos que ela
aparece em algum filme da Xuxa ou em algum programa de fofoca correndo de um
carro pra dentro de uma aula de ballet? O quanto nos sentimos derrotados por
não conseguirmos dar conta do que um sistema burguês nos impõe? O novo celular,
o novo notebook que amanhã já está velho, compre, venda, consuma e não viva.
Então resumidamente, ‘Keka Rarecandy Feat. Sasha Robot’ é uma brincadeira
relacionada a uma angustia que só cresce aliada a um sistema que só te põe pra
baixo sem você nem saber o por que.
Qual foi o ponto mais difícil da
história da banda onde vocês pensaram em voltar pra traz e abandonar tudo o que
hoje vocês estão conseguindo alcançar?
Houveram muitas dificuldades que construíram a estrada
até aqui e a maior de todas é a falta de estrutura do país aliada a ignorância
que é difundida culturalmente no Brasil. Sem nenhum tipo de preconceito a
outros estilos musicais, mas a titulo de exemplo: Se fossemos um grupo de
pagode, provavelmente no segundo ano de existência teríamos contrato fixo com
alguma balada e cada integrante ganharia 150 reais semanais pra ir lá tocar
musicas que provavelmente não seriam nossas. Devido ao sistema capitalista que
vivemos, importante é o que dá dinheiro, então mesmo que não buscássemos
‘inovação’ ou nossa própria forma de arte, estaríamos inseridos no que é tido
como normal e fim de papo. É muito difícil nadar contra numa maré aonde todos
os dias é preciso explicar pra alguém que nós somos isso, é o que nós sabemos
fazer, junto a todas as dificuldades que uma contra cultura atravessa. Hoje em dia temos todos entre 23 a 27 anos, e
antes mesmo de entrarmos na ‘adolescência’, já vivíamos essa banda que nos
trouxe até a vida adulta nos ensinando muito mais do que uma vida comum poderia
ensinar. Hoje em dia vivemos com a plena satisfação de termos nosso trabalho de
vida sendo reconhecido a cada dia mais, a cada novo tweet, retweet, mensagem no
facebook, compartilhamento de clipe e idéia trocada em shows nós temos mais
certeza de que existimos e alcançamos, o que resta agora é evoluir e expandir!
A Analisando é uma banda
Independente, completamente Underground. Muitas outras bandas e artistas também
estão nessa e começando a sua carreira agora.
Com os 6 anos de experiência que a banda tem, quais conselhos vocês tem
para dar à essas pessoas.
O maior conselho que podemos dar é que todos busquem
se unir! Enquanto muita banda perde tempo buscando defeito na banda do amigo ou
se doendo pelas conquistas de alguma outra banda da cidade, existe um mercado
fonográfico que sobrevive as nossas custas de maneiras que vão muito além da
musica. Independente de estilo musical,
todos nós que somos artistas independentes fazemos parte de uma fatia de
mercado que é completamente ignorada pelas grandes mídias por que não
conseguimos aliar as forças de forma que não seja possível não nos ouvir. Todas as conquistas que vitórias que
aconteceram em nossa trajetória até aqui foram com base em alianças e amizades
de pessoas que acreditam no nosso trabalho e somam pra que juntos sejamos mais
fortes.
Muito obrigado pelo espaço no blog e pela entrevista
que pra nós é sempre um grande prazer, continuem com o ótimo trabalho e
esperamos nos ver em breve!
